31 de ago de 2009

Como só o amor consegue ser

Ela estava decidida a escrever a declaração de amor mais bonita que já havia existido. Fez uma seleção de músicas românticas e sentou-se em sua cadeira, disposta a levantar apenas quando terminasse o trabalho. Horas depois, já colecionava inúmeras tentativas frustradas. Estava cercada por papéis que, amassados em formato de bolinhas, preenchiam o chão do escritório.

Desapontada, ela respirou fundo e criou coragem para continuar, quando uma das músicas de sua seleção começou a tocar e a fez perceber: suas tentativas nunca se transformariam na declaração mais bonita que já havia existido. Porque ela já havia sido escrita.

“And if a double-decker bus crashes into us
To die by your side, such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck kills the both of us
To die by your side
Well the pleasure and the privilege is mine”

E então, ela desistiu. Porque jamais existiria declaração que deixasse de lado os clichês sem perder o romantismo quanto a que acabara de ouvir. Que soasse tão cruel e, ao mesmo tempo, tão sensível e fosse tão angustiante e tão bonita. Como só o amor consegue ser.

*Trecho da música There is a light that never goes out, The Smiths.

27 de ago de 2009

Um talento

N entrou no vagão do metrô e olhou em volta. Não havia lugar para sentar, então recostou-se perto da porta do lado oposto e segurou a barra prateada e gelada com força. Estava distraída, ouvindo música enquanto folheava uma revista, quando flagrou-se com o olhar fixo nas folhas que uma moça concentrada preenchia com rabiscos ágeis. Com a caneta BIC em sua mão esquerda, ela acrescentava mais traços à obra que, aos poucos, se transformava em um homem perfeito, dono de cabelos esvoaçantes e vestido com um paletó. Na estação seguinte, a moça guardou as folhas em uma pasta, levantou do banco e deixou o vagão.

N ficou mais um tempo apenas segurando a revista que folheava, enquanto olhava para o nada com o pensamento ainda habitado pelo retrato daquele homem. No entanto, a imagem desenhada pela moça não foi o que realmente a deixou assim, tão pensativa. E sim, o talento. Aquela demonstração, rápida e evidente, de uma habilidade tão clara despertou dúvidas na mente insegura de N.

Será que ela também tinha um talento? Será que poderia continuar perseguindo seus sonhos sem correr o risco de chegar no fim e descobrir que, na verdade, não é tão boa quanto deveria ser?